Vivemos um paradoxo de abundância e escassez: enquanto a produção global de alimentos atinge níveis históricos, mais de 673 milhões de pessoas ainda enfrentam a fome. Entre 2019 e 2024, a pandemia, conflitos e a crise climática agravaram um desafio que já ameaçava o direito humano à alimentação. Este artigo explora a evolução dos indicadores, as causas estruturais, os impactos regionais e as possíveis saídas para um problema que afeta quase um quarto da população mundial.
Em 2019, antes da COVID-19, 613 milhões de pessoas viviam em situação de fome. Com o choque da pandemia, esse número subiu para 733 milhões em 2023, um retrocesso de 15 anos em relação a 2008–2009. Em 2024 houve uma leve queda, para 673 milhões, mas ainda 22 milhões a mais que em 2022.
Os níveis de insegurança alimentar moderada ou grave alcançaram 28% da população global, afetando 2,3 bilhões de indivíduos. Em 2020, 40% dos habitantes do planeta não tinham acesso a uma dieta saudável. A diminuição esperada em 2024 reflete esforços pontuais, mas a meta de fim da fome global até 2030 está cada vez mais distante.
A fome não se distribui de forma uniforme. A África concentra cerca de 1/3 dos famintos graves, com pouco mais de 20% da população afetada. Na Ásia, 418 milhões vivem sem comida suficiente, representando 9% do continente. América Latina e Caribe registraram uma queda para 5,1% em 2024, mas eventos climáticos extremos ainda ameaçam 73% dos países da região.
O cenário atual resulta de múltiplos fatores interligados. O crescimento populacional pressiona sistemas agrícolas frágeis. A pandemia de COVID-19 adicionou 150 milhões de famintos. Conflitos, como na Ucrânia, interromperam cadeias de produção e exportação.
Sem fortalecimento de sistemas agroalimentares resilientes, cada choque — natural ou humano — aprofunda a insegurança.
A desnutrição infantil atinge 22,3% das crianças abaixo de cinco anos, causando atrasos de crescimento e sequelas permanentes. Cerca de 319 milhões enfrentam insegurança aguda, exigindo resposta emergencial do Programa Alimentar Mundial.
O Índice Global de Segurança Alimentar (GFSI) e o Índice da Fome (IGF) mostram resultados estagnados desde 2015, violando o princípio de “ninguém deixado para trás”. Na América Latina, o Brasil reduziu a insegurança grave de 8% para 1,2% em 2023, mas a maioria dos países ainda convive com níveis preocupantes.
Na Ásia do Sul, iniciativas comunitárias têm melhorado o acesso a alimentos básicos. Na América Latina, programas de transferência de renda mitigam a vulnerabilidade. No entanto, a África subsaariana permanece o epicentro da crise, com projeção de concentrar metade dos 582 milhões de famintos crônicos em 2030.
Apesar de esforços do G20, FAO e ONU, os progressos são lentos diante de desigualdades estruturais e da exposição crescente a eventos climáticos extremos.
Para reverter a tendência, são necessárias ações coordenadas em múltiplas frentes. É urgente investir em pesquisa agropecuária, distribuir sementes resistentes, melhorar infraestrutura de armazenamento e transporte.
Sem colaboração internacional verdadeiramente urgente, a meta de ODS 2 ficará inatingível.
O dilema da segurança alimentar expõe fragilidades do nosso modelo global. A coexistência de produção recorde e fome em massa é um imperativo moral e estratégico. Precisamos de investimentos em infraestrutura rural sustentável e de resiliência diante de choques climáticos para garantir que toda pessoa tenha acesso digno e seguro à alimentação.
É hora de agir — governos, sociedade civil e setor privado devem unir esforços para transformar o paradoxal mundo de abundância e miséria em um futuro onde ninguém seja deixado para trás.
Referências