O acesso à água potável e ao saneamento básico é um direito humano fundamental, mas ainda enfrenta desafios críticos em diversas partes do mundo. Este artigo apresenta uma análise detalhada dos investimentos em soluções de água e saneamento, destacando seu impacto social, econômico e ambiental, com foco especial no cenário brasileiro.
Nas últimas décadas, o mundo testemunhou um interesse crescente em alternativas sustentáveis para a gestão hídrica. Uma dessas tendências são as Soluções baseadas na natureza (SbN), que replicam processos naturais para purificação e retenção de água. Entre 2013 e 2023, o investimento global em SbN dobrou na última década, alcançando US$ 49 bilhões em mais de 800 iniciativas ao redor do globo.
A China lidera esses aportes, com US$ 26,4 bilhões (54% do total), seguida pelos Estados Unidos e União Europeia, que juntos respondem por 94% dos investimentos fora da Ásia. Regiões em desenvolvimento, como África e Oceania, também experimentam crescimento acelerado: de apenas US$ 57 milhões em 2013 para US$ 288 milhões em 2023, um salto de cinco vezes no financiamento.
Os estudos da Organização Mundial da Saúde indicam que para cada dólar investido em água e saneamento, há economia de US$ 4,30 em custos de saúde decorrentes de doenças evitáveis. Além disso, o investimento no setor contribui para um crescimento adicional de 1,5% do PIB global, com retorno estimado em até quatro vezes o valor aplicado.
Por outro lado, a falta de ação gera perdas econômicas de US$ 260 bilhões por ano devido a enfermidades como diarreia, cólera, hepatite e tifoide, agravadas pelo saneamento inadequado. A diarreia, em particular, é a segunda maior causa de mortalidade entre crianças menores de cinco anos no mundo, reforçando a urgência de investimentos robustos.
Em 2026, o Brasil ainda enfrenta um déficit histórico de saneamento. Cerca de 35 milhões de brasileiros vivem sem acesso a água tratada, enquanto 50% da população não conta com coleta e tratamento de esgoto adequados. Embora mais de 80% tenha acesso à água potável, apenas metade possui serviços de coleta de efluentes em conformidade com padrões de saúde pública.
O marco regulatório de 2020 estabeleceu metas ambiciosas de universalização até 2033: atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Para alcançar esses objetivos, estima-se a necessidade de R$ 800 bilhões em investimentos até então, exigindo esforço integrado de poder público e iniciativa privada.
O Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) intensificou a alocação de recursos federais para o setor. Em 2025, houve aporte recorde de R$ 22,1 bilhões, totalizando R$ 61 bilhões entre 2023 e 2025 em seleções de projetos. Com debêntures, o montante federal ultrapassou R$ 90 bilhões no período.
Em 2025, foram contratados 255 empreendimentos, com R$ 8,1 bilhões investidos e 3 milhões de famílias beneficiadas. No ciclo 2023-2025, 1.251 iniciativas receberam R$ 27,6 bilhões federais, com média de R$ 126 por habitante ao ano, ainda abaixo do patamar ideal.
A presença da iniciativa privada no mercado de saneamento saltou de menos de 10% em 2017 para cerca de 30% em 2026, e deve crescer com novos leilões. Empresas de destaque incluem:
Essas empresas combinam estratégias de expansão de infraestrutura, eficiência operacional e compromissos ambientais e sociais, essenciais para a universalização dos serviços.
O principal gargalo brasileiro continua sendo a coleta de esgoto, com apenas um Estado atingindo as metas de cobertura. As disparidades regionais exigem soluções adaptadas e maior dinamismo regulatório.
Como alerta Teresa Vernaglia, ex-CEO da BRK, “Sem privatização e sem leilões, não chegaremos à universalização até 2033”. Apesar dos desafios, o avanço regulatório e a entrada de novos atores podem tornar o setor “infinitamente melhor” do que antes do marco de 2020.
Além do Novo PAC, outras linhas de financiamento se mostram promissoras, como parcerias público-privadas (PPP), concessões bilionárias e debêntures setoriais. A incorporação de tecnologia, infraestrutura verde e práticas ESG ampliam a eficiência dos projetos e reduzem custos de operação.
Para alcançar a universalização, é essencial que governos municipais, estaduais e federal atuem de forma coordenada, estabelecendo metas claras e mecanismos de monitoramento. A sociedade civil e o setor privado também devem participar ativamente, trazendo expertise técnica e recursos financeiros.
O futuro do saneamento dependerá da nossa capacidade de unir esforços em torno de uma causa que vai além de números e metas: trata-se de garantir dignidade, saúde e qualidade de vida para milhões de brasileiros e cidadãos ao redor do mundo. Cada investimento, cada projeto e cada gota de água tratada representam um passo decisivo rumo a um planeta mais justo e sustentável.
Referências